sexta-feira, 26 de maio de 2017

insights? - uma vida incomum como qualquer um 35

   


 uma vida incomum como qualquer um 35

insights?


Volta e meia meu corpo me avisa pr’eu me cuidar. Bom menino, quando escuto meu corpo, relaxo sem culpa. Meu corpo é, às vezes, uma mãe...

Tenho me sentido no limbo. Sabe o que é limbo? No catecismo, quando perdi minha inocência, aprendi que o limbo é aquele lugar pra onde vão os anjinhos, as crianças que morrem sem batismo. Lá, do que entendo, é vazio, é um nada. Meu limbo atual é este não saber quem sou, onde estou, de onde vim, pr’onde vou, que desejo. Como não sei, permaneço...

Minhas realidades pouco a pouco se enevoam... e eu gosto. Não sei descrevê-las, tudo um tanto difuso. Sigo a intuição, quase o impulso, mesmo sabendo que não sei. Tá vendo? - brincadeira - imagino além de mim, outros. Os objetos têm perdido antigos sentidos de suprirem vazios.

Saem os objetos, ficam os vazios, pelo menos não me engano. E o melhor, tenho me sentido melhor. Paralelo, o pique corporal diminui, os desejos, a ansiedade também. Serei o santo que desejei ser quando perdi a inocência no catecismo?

Pois é, sinto que a vida é o que sinto. Volta e meia me pergunto o que está ao meu alcance... e me surpreendo com o que posso fazer por mim mesmo.

Esta foi mais uma vez em que perdi outra inocência: se não cuido de mim, quem cuidará? Quando tento olhar com os olhos de quem me cuidou ou cuida, minha mãe por exemplo, desconfio que o outro - ela - vive tantas questões pessoais que não conseguiu resolver... Quando, assim, sinto compaixão por ela, me permito compaixão por mim mesmo. Se minha mãe foi não perfeita - nem meu pai, meus modelos - como eu?

Aí então me pergunto: o que está ao meu alcance fazer por mim? Viver contente? Rio, rio, rio... e não sei por que. Acho que tou no caminho certo.

Tudo muito novo, pra mim, isso de alimentar alegria. Rio de mim? E se rio do outro, no fundo rio de mim?

Luiz Fernando Sarmento














quinta-feira, 25 de maio de 2017

hoje, já passado - uma vida incomum como qualquer um 34



uma vida incomum como qualquer um 34

hoje, já passado



Pedaços

Não sei definir direitinho meu estado civil. Há momentos em que sou maridão. Feira juntos, disponível na manutenção da casa, furadeira empunho, retratos na parede, qual chá hoje? Relatos ao telefone, TV cedinho, só vou se você for, o que você quer pra que eu queira.

Canso, sensação de aprisionamento, de viver uma vida que não é minha. Gota d’água, me rebelo. Volto pra minha base solitária, repito, invento, reinvento rotinas. Viro namorado, duas vezes por semana. Cinema, passeio, cada um cuida do que se propõe, volto aos meus projetos, escrevo, gravo, alguns encontros com amigos. Em intervalos, sentimentos de solidão.

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Tudo muda a cada instante, também sei. Não sei definir com precisão minha profissão. Leio com frequência. Na cabeceira literatura psi, romances, esporadicamente livros técnicos, revistas. Jornal, uma vez por semana? Vejo um bom filme, leio algo que me fica, sei de uma notícia interessável, falo com um e outro, reproduzo, distribuo, imeio.

Penso como rede. Raciocínio inverso, a partir dos objetivos, planejo de lá pra cá. Há muito tempo tinha vergonha de falar o que pensava. Terapia, convivência com gente mais resolvida que eu, leituras, dois passos pra lá, um pra cá, ampliei no meu tempo minhas limitações, comecei a me expressar.

Hoje primo por livres associações, ora foras, ora dentro em cheio. Se me incomoda o incômodo de outros, tento distinguir o que é meu, o que é de outros. Sei que me sinto vivo quando vivo o que escolho, o que sou eu.

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Um ontem, gravei em Barra do Piraí um encontro de terapia comunitária. Paula, a terapeuta. Praça principal, gente mais velha, o tema escolhido foi a preocupação com os filhos, mesmo os já adultos.

É um que bebe e fuma, outro que anda de motocicleta, chega tarde e assim vai. Uma senhora se emociona ao relembrar a recente morte, AVC, de pessoa próxima. Alguém inicia uma música, abraçam-se em roda, balançam enquanto cantam, trocam olhares compreensivos, ternos. Um ou outra que permanecia mudo se expressa, ainda tímida, voz baixa, bota pra fora o que lhe incomoda. Uns quantos chegaram solitários, partem agora um tanto solidários. Sexo não tem idade. Sexualidade.

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Semanas passadas. Vem se acumulando uma sensação de excesso de compromissos comigo mesmo. Iniciei semana passada o que imagino uma série de entrevistas. Luiz Soares é um morador de Manguinhos, comunicador ativo, leva-e-traz informações que beneficiam os que ouvem, nos encontros comunitários que participa. Já o vi, discreto, atento, em meio a muitos, nos cantos das telas, em três documentários recentes que assisti.

Segunda por volta das nove nos encontramos aqui em casa, de frente um para o outro, um em cada cadeira, uma câmera nele, outra em mim. Fala do que é, do que faz, dos planos. Invertemos, ele me entrevista, conto o que imagino sou, faço, da terapia comunitária. Trocamos de cadeira de novo, ele desfia realizações que têm dado certo em comunidades menos favorecidas, frutos de iniciativas de moradores locais. Aventamos também entrevistá-los aqui, nas semanas vindouras. Entrego as fitas gravadas, brutas, para ele. Mostrará para amigos da TV Comunitária – canal fechado da net – com a intenção de, juntos, editarem e veicularem. Dois dias depois já me informa encontrou interessados e que em vinte e cinco dias terá resposta.

Anteontem contei para Evandro Ouriques, da Escola de Comunicação da UFRJ. Combinamos entrevista daqui a duas semanas. Antes eu já havia comprado alguns equipamentos complementares, alternativos, baratos: dois rolos de chromakey, duas luminárias-tipo-panelas de alumínio, lâmpadas fluorescentes e mais umas coisinhas pra montar um estúdio caseiro aqui no que é meu teto. Busquei dicas com quem sabe. A câmera dvcam de Michel permanece comigo, Pedro meu filho me informa dos softwares, Jorge Rodrigues ternamente se oferece e constrói os materiais que tenho me permitido aceitar. Como uma sopa de pedras. Sementes de programas de tv?


Luiz Fernando Sarmento









terça-feira, 23 de maio de 2017

Zaz








Oi.

Aqui escuto Zaz,
e Zaz me alegra,
inda mais,
nesta vida simplificada
e boa.

Boa noite pr’ocê,
pr’ocês, também,


Luiz










revolução




evolução coletiva
fruto da evolução individual

cabe a cada um

cuidar do que lhe cabe




manual de manutenção - uma vida incomum como qualquer um 33




uma vida incomum como qualquer um 33

manual de manutenção


Se a vida é uma escola, qual meu dever de casa? Realizar meus desejos, ser sincero comigo, respeitar meus sentimentos? E na relação de namoro, casamento?

Hoje uma tristeza que freia. Só, sinto falta do aconchego, do calor, da doçura. Da calma, do prazer que acalma. Sinto um desejo difuso, não é claro o que desejo. Tento pelas bordas, pinço então o que não desejo – ser alvo de ciúmes, hora marcada pra tesão, ser cobrado pelo que não sou nem me comprometi.

Clareia um pouco, sei que quero do bom que provei, usufruí. Ser desejado pelo que sou, como desejo pelo que é. O mel do beijo quente, ativo. O arrepio do olhar, do toque. A sensação de eternidade, ausência do tempo. A pulsação, em que do nada me espalho em ondas. Nestes momentos, memória e futuro ausentes, só presente o presente.

Dados de realidade, nem eu nem ninguém que conheço tem só as qualidades que me atraem. Sempre uma mistura de atrações e recusas. Sinto também que não devo, antes de conhecer, definir a quem procuro. Devo então permanecer atento aos sinais em mim. Os batimentos do coração, as livres associações, os atos falhos, os sentimentos. Se quero e me permito despertar variações, já sei, um filme bom, uma festa, alguns arriscos. Reconheço, dá trabalho me manter vivo como me gosto.

Ao editor

Imaginei um espelho como capa do livro. E as páginas iniciais brancas, como um caderno novo disponível pro leitor. O formato, de bolso. Ou aquele que facilita xerox? Letras de forma e tamanho que facilitem a leitura. Aquele papel meio amarelo claro. Textos enxutos, conteúdos e estilos variados, mistura de subjetivo e objetivo. Ora ficção, ora realidade. Entrelinhas que estimulem atenção. Em algum momento a sugestão: leia aos poucos, em momentos calmos. E > é permitido acrescentar, reproduzir e distribuir para fins humanitários. Um livro como um meu retrato, o meu eu idealizado.

Imaginei um livro como movimento. E um leitor que simplesmente leia. Ou – se lhe convier – ao se identificar, amplie, invente, acrescente e assine, multiplique, distribua, de acordo com seus desejos e possibilidades. Gosto muito de uma regra de ouro, faça ao outro o que deseja para si.

Luiz Fernando Sarmento







segunda-feira, 22 de maio de 2017

rico - uma vida incomum como qualquer um 32





uma vida incomum como qualquer um 32

rico

O que desejo pra mim é o que desejo pra ti. Eu, aqui, agora no processo de aprender a estar contente. Rico por viver contente. Este o desejo.

Decisões Indecisas

Gostei da ideia. Decretos pessoais. Avalio melhor que ninguém meus próprios desejos e viabilidades. Determino a mim o que faço ou não. Começo pequeno. Hoje fico mais meia hora em casa pra escrever.

Cumpro a missão da instituição que me contrata – contribuir pro bem-estar dos menos favorecidos. Coincide com o que desejo, me alegro: inda me pagam pra trabalhar no que gosto. Tenho este olhar internalizado como sentimento. Faço o bem, não olho a quem, mesmo fora da hora. No banho, na cama, no trabalho, na rua, em qualquer lugar – quando relaxo – fica tudo um tanto mais claro, as soluções se desvendam. Estou tranquilo. Uma contabilidade cósmica indica justo equilíbrio.

Escolhas

Os custos de controles invadem orçamentos. Controle significa instrumento de domínio. Controles me enfraquecem. Mas quando eu gosto do que faço, faço o que gosto, pra que controle?

Imagino-me suprido, desde aquela explosão de afetos que me gerou. Papai e mamãe se olham e seus olhares são ternura e tesão. Calmamente se sentem, se tocam, têm o tempo como amigo. Mergulham no barato que vivem, se babam, se riem, arrepiam. O prazer toma conta, gozam. Passa um tempo... E lá venho eu, energias misturadas, embrião, parte de cada um.

Cresço cuidado, descubro o mundo, me cuido e partilho. Desejos e sentimentos vêm e vão. Aprendo transformá-los e a mim, como cachoeira em luz, ventos em ondas, trovões em matérias. Compreendo lá dentro, desfaço mal-entendidos, me supro cada buraco em cada momento. Não carrego vazios. Nada possuo além de mim mesmo. Sou inteiro. Componho o mundo, sou parte
e sou todo. O que percebo fora é o que reconheço porque sou. Não desejo possuir o que é parte de mim.

Sou também vegetal quando como. E sol quando me esquento e brilho. E o ar que respiro, a água que bebo. Internalizo e reflito o olhar, a emoção, o pensamento que recebo.

Produzo o que preciso, supro outros como sou e fui suprido. Pertenço ao mundo sem ser possuído. Decreto pessoal: sou livre.

Vago

Tudo me leva a crer que o mundo será o mesmo sem mim. Já meu mundo existe em mim, sou centro do meu universo. Só me resta viver.

É tão bom estudar sem ter que fazer provas, escrever despreocupado de notas. Mas como não ferir aquele a quem minha escrita porventura se refira?

Sentimentos de tristeza me assaltam se me toco do que fiz no impulso, como ontem, quando pressionei um jovem mendigo aidético: se é lá sua terra, se é lá que tem tratamento gratuito, volte pra lá. Constante no diálogo uma mistura de minha impotência e raiva, atrás do meu aparente afeto e desprendimento.

Saquei que associar alegria a castigo me dificulta viver o prazer. Agora todo dia enfrento medos e culpas. Quando venço, rio, me alegro, gozo. Outras vezes, quando transo, cultivo o prazer d’agora, evito o orgasmo. Permanece um quente no corpo, uma animação sutil, ausência de ânsia, pronto pra outras. Um tanto tantra. A meta, se existe, é o prazer durante, não o orgasmo ao final.

Por outro lado, esta sensação dejavu volta e meia me lembra do que antevi. Pressinto o que vem. Sinto uma ponta de tristeza quando com ironia sou chamado de poeta, filósofo, doidão. Sinais que estimulei defesas, não fui entendido. Sei que o sonhar, o imaginar – mesmo não conscientes – antecedem em mim cada realização. Meu mundo é feito a partir de meus sonhos, imaginações.

Sonhos podem ser leves. Se pesados, pesadelos. Como escolher sonhos leves? Se durmo de barriga cheia, é batata, pesadelos. Mas com a digestão já tranquila – e a cabeça no travesseiro, os olhos fechados –, se me volto pra agradáveis lembranças, imaginações prazerosas, batata!, leves sonhos. Toda noite – só quando consciente do que faço – escolho.

Perdi minha vida por educação. Verlaine? Algumas vezes leio só passando os olhos, outras tento entender tudo. Se atento demais, fico tenso, vou e volto, às vezes entendo, fica ou não fica. Tenho me permitido ler mesmo sem entender tudo. Sinto que mais que só algo permanece. Salteio páginas de Freud, me atenho ao que me toca. Passo os olhos em quase tudo que me cai em mãos.

Já não sei de quem vieram – se de um ou outro, ou desconhecido ou de mim ou de nenhum – estes entendimentos que já fazem parte de mim. Já folhetos, folheio. E se uma palavra, uma frase, uma ideia me desperta um sentimento, vem a curiosidade, leio. E quando me toca, cresço. Dos livros, também, adoro orelhas: às vezes fico só nelas.

Luiz Fernando Sarmento








domingo, 21 de maio de 2017

juntomisturado - uma vida incomum como qualquer um 31



uma vida incomum como qualquer um 31

juntomisturado


Perguntas que me faço...
Em cada outro, um pedaço de mim?
Em cada pessoa, um tanto da minha pessoa?

Quando percebo algo no outro,
é algo que já conheço? Em mim?
Livre arbítrio, o que é em mim? Pratico?

Ética, o que é em mim?
Quando não fui ético?
Afeto, o que é em mim?

Sou afetuoso com quem desejo?
O mundo anda enquanto paro?
E o amor, o que é o amor?

Como descrever o gosto da banana?
E o gozo, pra quem não gozou?
E o amor, se só vislumbro?

Desconfio que estou amando quando desejo para o outro o que, lá no meu profundo, desejo pra mim. Se é assim o amor, meu amor é nosso amor.

Meu amor é como um reflexo. Sou espelho do que recebo e percebo. Sou amado pelo que ofereço. Talvez eu saiba o que o amor não é. Não possuo nem sou possuído. Não limito nem sou limitado.

Meu amor não é excludente. Amo um e uma eamo outros. Amo a mim, amo aqueles que desejampra mim o que desejam – lá nos seus profundos– pra si mesmos.

Só amo outro quando amo a mim. Sou dou oque tenho.

Anos depois, leio Contardo Caligaris e me identifico:

“Eu não tenho ciúme. Se alguém que eu amome deixa por outro, eu me desespero como todo mundo.Mas se alguém que eu amo, sei lá, está viajando,
continua me amando, mas tem a oportunidade de sedivertir com outro parceiro por um par de dias ou desemanas, eu fico feliz por ela.”.

Pergunta que, sei, só devo fazer ao espelho:
quevocê quer que eu queira, para eu querer?

E o livro?

Alguém já disse que o escultor, pra realizar sua obra, vai retirando do objeto bruto o que está em excesso. Constrói pela retirada.

Disseram também que escrever é cortar palavras. Tentei. E foram tantos cortes que a prosa tomou forma de poesia.

A poesia, cortada, virou o que? Haicai? Mas se enxuto este que imagino haicai, sobra o silêncio.

Agora tento de novo, cortando menos, na esperança que cada leitor edite. Assim como acontece comigo, fico de cada leitura somente com o que me toca.
O que posso me dizer? Quanto mais maduro, melhor me sinto. Sou centro do meu universo. A vida é um fluxo variado. Cuido de mim. Meu humor é um indicador. Quanto mais faço o que quero, melhor pra todos. Ando cheio de sabedoria. Quando tropeço, duvido. Se atento, aprendo. Desatento, tropeço de novo...

E o Tao Te King?
Eu gostaria de ser sábio a ponto de conhecer a mim mesmo. Tão forte que capaz de me dominar. Rico, rico de viver contente. E terno, eterno, transcendente da morte.

E sofrimentos?
Eu sofro porque desejo?
Eu desejo porque sinto falta?
Minhas faltas onde nasceram?
O que eu tinha que não tenho?

Cinema e vídeo
Na década de 70, operário de cinema, exerci funções variadas. Como voluntário, no escritório dos Barreto, atento ao tudo novo, bolei e pratiquei controles administrativos. Depois, em Perdida, de Carlos Alberto Prates Correia, aprendi direção de produção. Generoso, Carlos Alberto abriu portas e janelas. Pratiquei assistência de montagem com Amauri Alves e Eduardo Escorel, no Guerra Conjugal, de Joaquim Pedro. Cada corte, muito trabalho manual.

Frequentei anos a Mapa, produtora de Zelito Viana, desde os tempos da Urca. Na Embrafilme fiquei à disposição de Roberto Farias e, no setor de rádio e televisão, sob o olhar da Martha Alencar, dirigi – hoje sei, sem estar preparado – o Coisas Nossas, programa com exibição de documentários veiculado pela TVE. Lá, por um ou poucos dias, fui assistente de som do Jorge Amado, documentário de Glauber Rocha. Participei também da sua montagem, também como assistente. Glauber chegava, orientava Carlos Cox – o montador – e voltava depois.

Os neurônios da memória saltitam. Fiquei sem voz ao dar de cara com Caetano no corredor. E, tão fã, ao invés de me aproximar de Gil, fotografei.

Tive uma câmera VHS, daquelas ligadas por um fio à unidade de gravação. Minhas mãos eram muitas para – simploriamente, apaixonadamente, inocentemente? – produzir e gravar o que me atraia. Cenas familiares, movimentos e, no campo psi, vivências, simpósios, depoimentos, entrevistas.

Com dinheiro curto, me limitei ao possível. Utilizava copiões – cópias para trabalho, feitas a partir das fitas originais – para assistir repetidamente o que havia gravado. Selecionava, roteirizava. Alguns documentários ficaram prontos. E cópias, feitas por empresas especializadas. A capa, embalagem, distribuição, presenteios e vendas, mão-a-mão apoiado por amigos. Um tanto assim até hoje.

Sempre me propus conteúdos atemporais. Compreendi que qualidades técnicas contemporâneas estavam fora do meu alcance. As formas, as mais simples. Câmera na mão ou fixa. Cortes secos, fades out e in.

Comprei uma Canon 16mm, emprestei. Roubada no local da filmagem, fui ressarcido em prestações mensais. De outra vez pedi a um amigo que estava vendendo sua própria câmera que também vendesse a minha SHVS. Um comprador se interessou, propôs depositar o valor. Voltou com o recibo do banco, levou a câmera. O cheque depositado era roubado... Sonhos interrompidos.

Tempo passado, mergulho na terapia comunitária. Horas e horas de gravação, agora com uma HDV Canon pequeninha, sugerida pelo Elizeu Ewald, pioneiro em tecnologias virtuais. Medos semelhantes aos de trinta anos atrás se aproximam de mim. Mas aprendi que prazos me angustiam... e já não me imponho datas nem sociedades. Está quase se tornando um prazer, o fazer. Aprendo.


Luiz Fernando Sarmento








sábado, 20 de maio de 2017

pausa - uma vida incomum como qualquer um 30





 uma vida incomum como qualquer um 30

pausa


Horizontes
Lá na frente, como me vejo? Fecho os olhos, me sinto adolescente. Abro, a imagem me choca, um velho. Quem é este homem maduro, enrugado? Sei que agora não me reconheço ao espelho.

Hoje
Ou ontem, amanhã, o tempo se dilui em minha memória frágil. Meu sofrimento hoje é alguma tristeza difusa, talvez profunda atrás deste meu fazer vídeo, fazer livro, fazer encontros de terapia, fazer, fazer.

Talvez esta irritação na garganta expresse o incômodo que sinto e do qual não me aproximo. Se a vida, o mundo, é um palco enorme, em cada espaço algo acontece. Como atos de teatros. Aqui e ali um nascimento, uma morte, uma dança, tiroteio, um canto, um olhar, um desvio, choro, sorriso, arrepio, descanso, tensão, medo, uma criação, destruição, solidão, um conforto, desconsideração, solidariedade.

Quando sou o ator, tenho escolhido neste palco o bem-estar que suporto. Quando espectador, uma vez visto, internalizo, não releio notícias, desgraças.
Minha referência tem sido meu humor. Se bem humorado, é por aqui. Se mal-humorado, não. Tenho cuidado de me compreender. Já sei que meu gosto pelo outro passa pelo meu gostar de mim.

Em casa, nenhum remédio. Nem comprimido, além da Maravilha Curativa que cicatriza, nenhum. Muito de vez em quando, como estes últimos dias, um sinal. Como esta irritação de garganta, um início de catarro, remelas ao acordar. Talvez meu corpo expresse algum sentimento contido. Desconfio de tristeza. Há alguns dias, a maior parte de mim não deseja encontrar-se com ela.

Simples assim
Homens hipnotizados passam agora correndo em frente. Cantam firmes, uníssonos. Dentre os versos escuto ...É a vontade de matar... Escolheram a morte como meio.

Pra deles me defender, tento entendê-los, olhar com seus olhares. Sinto medo dos seus medos. Pressinto que por medo, atiram. Suas ações nascem das pressões que internalizaram – as ordens, os castigos, suas missões – e do medo de sofrerem. E ainda ganham medalhas e parabéns.

São, somos, sou o mesmo guerreiro de ontem e de hoje. Têm, temos, tenho um tanto da idade da pedra. Repetem, repetimos, repito os bárbaros, domino mundos e perco guerras no interior de mim mesmo. São, somos, sou semelhante a soldados hunos, persas, egípcios, romanos, espanhóis, ingleses,
alemães, americanos.

Seus, nossos, meus medos têm raízes em minha infância, são reforçados na
adolescência, enrijecidos agora adulto. Seus, nossos, meus horizontes são curtos. Imagino a atenção constante, o inimigo em cada lugar, cada desconhecido uma possível vingança.

Quando matam, matamos, mato o outro, mato um tanto de mim. E não percebem, não percebemos, percebo. Como quando elevam, elevamos, elevo o outro, a mim elevo.

Parafraseio Laing. Alguém me ama, me acho bom. Alguém não me ama, me acho mau. E lembro Lennon, all we need is love. Love is all we need. Empírico, sei, quem apanha em casa é quem mais briga na rua. Tudo começa em casa: Winnicott tinha razão?

Luiz Fernando Sarmento








sexta-feira, 19 de maio de 2017

emoções de todo dia - uma vida incomum como qualquer um 29

   


 uma vida incomum como qualquer um 29

emoções de todo dia

À tarde, Jun e o filho, Mitsuhito, chegam alguns minutos depois das três. Apresento superficialmente as câmeras gravadoras e lá vamos de táxi em direção à casa de atendimento comunitário aos pés do Turano, no Rio Comprido.

Mitsu prepara sua câmera fotográfica, Jun a dvcam, eu a também pequena hdv. Converso com duas estudantes de psicologia. E com nossa anfitriã, que todo dia ativa a casa. Chegam algumas senhoras moradoras da comunidade... Depois Alex e Sandra, responsáveis neste dia pela Terapia Comunitária. Somos em torno de dez pessoas.

Entre os problemas, a votação maior definiu o escolhido. Uma senhora, em lágrimas, relata seu sofrimento com as vidas de seus dois filhos. Um, na ilegalidade, foi morto pela polícia. O mais novo, preso por motivos semelhantes, não retornou à prisão quando foi liberado para visitar sua família. Permanece ilegal. Enquanto preso, a mãe, mesmo passando constrangimento, o visitava o tanto permitido. Ela sofre também por não ser reconhecida e valorizada pelo filho vivo.

Ao final, como tenho vivido em sessões de terapia comunitária, os abraços, olhares e conversas traduzem os sentimentos, a solidariedade. A mãe sofredora se declara confortada, mais animada. Vamos em paz.

No dia seguinte. Na minha formação, uma vez por mês participo de uma intervisão, sábado inteiro. Pela manhã, muitas vezes, um convidado fala sobre algo novo para nós.

Anteontem conheci um tanto de Equipe Reflexiva, uma ideia e prática original de Thomas Andersen. Do que entendi, enquanto uma família é atendida por um terapeuta, outros terapeutas observam em silêncio e refletem. Os dois grupos trocam de posições, se a família deseja. Os que observavam falam entre si das suas percepções, enquanto a família agora os observa. Finalmente os membros da família fazem seus comentários. É um processo reflexivo.

À tarde, roda de terapia comunitária. Alguém apresenta sua dificuldade quanto à presença de público nas rodas que realiza. Outra fala da sua dificuldade no relacionamento com a filha adolescente. Esta última foi o tema escolhido, houve um  maior número de pessoas que, por se identificarem com ele, nele votaram.

A mãe detalha, responde a perguntas, se emociona. Fala da sensação de perda do amor materno, da vontade de matar, intercala choro e desabafo.

Depois, em silêncio, escuta experiências compartilhadas por uma ou outra mãe presentes. Duas filhas contam, sob outro ângulo, o que viveram de semelhante. Por duas vezes, dor de barriga, a mãe na berlinda vai ao banheiro. O corpo fala. Volta, escuta, compreende um tanto, sorri entre lágrimas, se acalma.
Na roda de despedida, músicas e o que levo daqui.

Olhares complementam as palavras. Os gestos expressam afetos. Mais próximos do que antes, nos despedimos com abraços.


Luiz Fernando Sarmento