quarta-feira, 18 de outubro de 2017

permaneço criança - 06 uma vida incomum como qualquer um







permaneço criança

Permaneço criança, fantasiado de adulto. Sinto hoje minha criança presente em tudo o que sou e faço. Amadurecendo, aprendo agora gostar de mim.   Reconheço – recordo que fiz o melhor que soube, que pude em quase, se não todos, momentos da minha vida.

Depois, horas dançantes, desejos fortes. Os apertos de mãos, o bate-coxas, os rostos colados, os beijos de língua, as mãos nos peitos. A iniciação no bequinho dos meninos, o risco, o frisson, o gozo rápido. Sempre presente, proibido – um tanto fora, um tanto dentro de mim – o sexo.

Aos doze, inda anos 50, para ganhar um pouco, vendi cestas de natal. Que alegria um dinheirinho fruto do meu trabalho. Depois, lá pelos catorze, aulas de matemática pro filho do representante da Brahma na região, que me contratou depois como auxiliar administrativo.

Fiz o segundo científico em Belorizonte, o primeiro e terceiro em Montes Claros. Vestibular – não passei em BH – escolhi, mesmo sem saber o que era, economia e lá fui eu pra Brasília.

Dei aulas de matemática à noite no Gama, fui monitor de estatística na UnB, estagiário no Ministério da Agricultura, Socorro foi meu amor e com razão me deixou. Sai de dois serviços públicos, errei como pequeno industrial de malhas. Arrisquei o Rio.

Início dos anos setenta
Conjugado dividido em Copa, um karman-ghia, paquera aleatória diária, sexo como objetivo. Culpas misturadas com prazeres. Trabalho no Instituto de Colonização e Reforma Agrária, o Incra, aqui responsável pela coordenação do treinamento e seleção de quem cuidaria de fazer os levantamentos de dados em campo. O combinado era uma passiva reforma agrária, através da taxação progressiva tanto das propriedades menores, os minifúndios, quanto das propriedades maiores, os latifúndios. Maiores ou menores em relação à área definida em cada microrregião como a suficiente para a sobrevivência e desenvolvimento econômico de uma família trabalhadora.

Levantamento feito, memória difusa, quem detinha o poder de assinar, decidir optou pela proteção aos latifúndios. Larguei mais este serviço público, vendi o carro – já um fusca – e, com Ana, pegamos o navio em direção incerta, hippies sem saber que éramos.

Uma semana em Barcelona, dez dias em Andorra acolhidos por um índio peruano, um frio danado, atravessamos a Europa batendo a mão, carona pura até Amsterdam. Lá, centro da cidade, na redlight, mulheres na vitrine, encontramos um quarto bom, ambiente aquecido, chuveiro externo quentão, baratinho. Ana foi posar na escola de desenho e pintura, eu aprender a bater perna.

O Kosmos, um choque. Centro cultural para jovens holandeses, financiado pelo governo, duas moedas pra entrar, de cara um salão grande, alguma fumaça com cheiro bom como os dos bolos e tortas, música suave, pessoas calmas espalhadas. Outra porta, um forno elétrico, barro à vontade para quem quisesse esculpir e levar. Depois um salão, cubos grandes em muitos níveis, espaço para apresentações de artistas passantes, asiáticos, europeus, africanos, latinos, americanos, de outros mundos.

Desço escada, uma cozinha com aquelas comidas estranhas, cheirosas, leves, caseiras, que depois descobri macrobióticas e naturais. Sauna grandona, homens e mulheres conversam e agem como se não estivessem nus. Tudo muito paraíso.

Noutro lugar, à noite, o Paradiso. Coca e maconha oferecidos na calçada, música a mais moderna adentro. Corri da coca, medroso de me apaixonar. Aos meus olhos tudo muito leve, tudo muito puro. Alegria quase insuportável. Assim as portas se me abriram para outras janelas.

Antes, em Brasília,
vislumbre de nova vida. 1965, dezoito anos, meus tempos e afazeres por minha conta. Duzentos e trinta professores demitidos, greve boa parte do ano na universidade. Estudos intercalados com aventuras. A população masculina predominava.

Zona boêmia, rendez-vous só fora do distrito federal. Pegava carona, lá ia eu mendigar por amor, carinho, consideração. Bati errante, errado em portas erradas. Madrugadas frias, solidão. Também por carência - necessidade de estar próximo a colegas, de ser aceito - perdi no baralho muito de minhas mesadas.

Já no segundo ano, monitor de estatística na universidade, estagiário de economia no Ministério da Agricultura, professor de matemática para o ginasial de escola da Fundação Educacional do Distrito Federal. Em 66 já tinha um fusquinha. Em 67 completei rapidinho todas as matérias do currículo de Economia, fiz outras de Administração Pública enquanto esperava o tempo mínimo para me diplomar.

Muito jovem aprendi a ser bonzinho. Pra não apanhar, literal e simbolicamente. Como uma defesa diante do mundo. Meu humor era leve, brincava fácil. Cedo percebi que podia escolher meus rumos. Era só me responsabilizar pelos resultados do que fazia.

Atenção redobrada ao que acontecia fora e dentro de mim, ao que era real e ao imaginado. Medos antecedendo às decisões. Culpas depois das ações. A cada fugida da regra, da normalidade, medos e culpas e reflexões. Erro e acerto, tateando atento, emimesmado. A regra de ouro presente: não fazer a outro o que não desejo pra mim. Como auto referência, meu humor. Se bem-humorado, vale, valeu. Se mal, o que está ao meu alcance?

Luiz Fernando Sarmento









terça-feira, 17 de outubro de 2017

lembranças - 05 uma vida incomum como qualquer um



lembranças


Escrevo para lembrar:
olha eu aqui, existo. Também para me entender, a mim, a outros, ao mundo. Quero ser reconhecido, amado. Tenho medo do que não compreendo. O que não compreendo, no início, é difuso, confuso. Não enxergo um palmo diante do nariz.

Sinto que viver é perigoso, mas não viver parece ser mais. Quando apalpo, ando, chego mais perto, a vista se acostuma à névoa, o mistério vai clareando, a compreensão substitui o medo, alguma ordem se segue ao caos.

O tempo passa, a memória me trai, multiplicam--se os mistérios. Sessenta e um anos e permanecem marcas infantis, desejos juvenis, dúvidas anteriores a mim. Tem coisas que sinto que sei. Um tanto aprendi do que vivi. Outros tantos do que li, ouvi, encostei, cheirei, provei.

Agora a memória mais remota é porta de rua, gente grande conversando, eu com dois, três anos. Ficaram histórias de almas de outro mundo, mulas sem cabeça, uma foto de uma morta num caixão. No berço, sombras. Os olhos fechados pra fugir dos medos. Tão apertados que distorceram – na segunda infância, sem enxergar direito, fui Luiz Ceguim.

Eu era pobre e não sabia. Não havia o que comparar, felicidade e infelicidade eram desconhecidas. Não havia rádio, telefone, televisão, internet, luz elétrica. Calorão tropical. Farinha na cuia pros que pediam esmola à porta. Água do pote pra beber. Chão de espécie de tijolo. Arroz, feijão, farinha, rapadura, carne seca. Gamela, pilão. Banana, melancia, manga. Café torrado, fogão a lenha. Banho frio na bacia, toalha de saco. Roupa lavada no rio. Praça com cruzeiro, esquina de rua que leva ao cemitério, mortos que passam carregados em seus caixões. O vizinho que estudou muito e ficou doido. A tia mocetona, presa no quarto, canta sertaneja se eu pudesse, se papai do céu me desse duas asas pra voar...

Hoje sinto que era rico e não sabia. Não sabia se eu era pobre ou era rico. Nem sabia o que era ser rico ou ser pobre. Daquele tempo ficou em mim, forte, a memória afetiva. Já os fatos, como névoas.

Mamãe chegou a Salinas pra dar aulas, aos quinze anos. Papai já estava lá, amado e mimado pelo pai adotivo. Cheguei quando meu irmão e duas irmãs já tinham nascido. Mamãe aos vinte e sete, quando se percebeu grávida de mim,
imagino o sentimento imediato: ah, não! Talvez só minha imaginação, não ter sido desejado no primeiro momento. Perguntei a mamãe se isto verdade. Ela disse: não.

Soube por mamãe que, aos 29, cuidou cuidar da própria vida. Um filho em cada casa de amigo, o mais velho com ela, foi se capacitar em Belorizonte. Isso facilitou a nossa mudança, dois anos depois, para Montes Claros, onde mamãe estava em casa, próxima a muitos dos seus catorze irmãos, parentes e amigos de infância.

De Salinas minha memória traz os cheiros, os sons, o sol, uns medos, uns deslumbramentos. Imagens das pernas de presos pra fora das janelas da cela, um clima de festa na feira dos sábados – bruacas, animais, sacos de grãos e farinhas, gente, muita gente. Eu num vai e vem, movimento no movimento. Panelas, boizinhos e cavalinhos de barro, colheres de pau, biscoito, requeijão, pão de queijo, tacho de cobre. Um bocado de mistérios.

Já em Montes Claros, medo mesmo tive no catecismo. Aquele inferno que nunca acaba, chamas eternas, pavores. E as dúvidas do que era pecado mortal, venial. Quaresma, panos roxos cobrem os santos, carne nenhuma à mesa. Os olhares tristes das imagens, os ferimentos de cristo. Os dez mandamentos, os sete pecados capitais. A proibição do ócio, do sexo, da raiva, da alegria, das expressões de emoções. Eu era pecador e não sabia. Antes eventualmente sofria, agora o sofrimento estava dentro de mim, constante. À crueldade dos adultos se somou a das crianças.

Mamãe definiu: brigou na rua, apanha em casa. Inseguro, provocado, tirava os óculos, fechava os olhos, dobrava o corpo e dava murros às cegas. Apanhava na rua, apanhava em casa. Até hoje não sei brigar.

Mas brincava de roda, pegador, seu rei mandou dizer. Ouvia serenatas, me lambuzava de manga, pipoca era uma festa. O cheiro que a chuva provoca na terra, finca, bilboquê, luta de espadas, papagaio na linha, pé no chão.

Latim, matemática, desenho, trabalhos manuais, português, geografia, religião, história. Um pouco de francês, inglês, coral. Recreio, trabalho na cantina. Férias. São João, passeios no mato, banho de rio. Tarzan, Mandrake, Fantasma, Cavaleiro Negro, Zorro. Matinê, seriado, Rock Lane, Roy Rogers, Kung Fu.

A boiada passando na porta de casa. Os compromissos escolares, as obrigações caseiras – comprar o pão, engraxar sapatos, passar cera no assoalho, arrumar a cama, levar e trazer o que for preciso, eventualmente buscar marmita. E olhares afetuosos de quem gostava de si. E de mim.


Luiz Fernando Sarmento













segunda-feira, 16 de outubro de 2017

mamãe - 04 uma vida incomum como qualquer um





mamãe


Após a morte de mamãe, minhas irmãs sugeriram que eu escrevesse um necrológio.

1919. Nasce Heloisa. Vem para os Anjos, família grande numa Montes Claros criança. Amizades profundas com primas vizinhas de quintais. Tudo tranquilo neste porto protegido.

1928? Bum! Morre o pai, ficam sua mãe Antônia e 8 filhos. O avô paterno, Antônio, orienta, distribui. Cada filho, um tio, um parente.

1934, de novo, seu mundo treme. Com a irmã Wanda, sós, vai pro lugar que não conhece, Salinas. Imagino inseguranças, saudades, solidões. Vive compaixões, compartilhamentos, cria vínculos. Aprende na vida, ensina no Grupo Escolar. Enamora Rodrigo.

1938, casa. Vêm quatro filhos. Cai a ficha, acredita em si, toma as rédeas. 1948. Salinas fica pequena. Agora vejo, a história como se repete – pra abrir caminhos de liberdade, distribui por um tempo os filhos: Lina fica com Wanda, Stella com tia Odília, Luiz com d. Rosinha. Rodrigo, o marido, cuida de si.

Mamãe dá o salto. João vai junto. Belorizonte, Instituto de Educação, mergulha. Regressa, respira, arruma as malas, barriguda de Heloisa Helena: volta às origens, Montes Claros, 1951. O marido, é o possível, vai à luta em São João do Paraíso. Contribui de lá.

Só com os filhos, a mãe, como defesa, controla. Tudo ou quase. Articula. Rodrigo retorna, a família recompleta. Sempre, dá aulas, educa. Nos intervalos, costura, remenda, orienta, organiza.

1954. Nasce o D. João Antônio Pimenta, Heloisa diretora, funda um Grupo Escolar. À noite dá aulas no Sesi. Por um tempo, acumula o Colégio Diocesano. Conhece, reconhece gente, constrói amizades. Cuida da família, corresponde aos que solicitam, dá as mãos, ensina, ensina, educa, educa, trabalha, trabalha. Agora cuida também das normalistas: ensina a ensinar.

Planta plantas, rega como planta e cultiva ideias, conhecimentos, relações. Solidária em momentos necessários, fortalece o bem. Guarda confidências. Reflete, aconselha. Direto e reto. Não deixa para amanhã o que é de hoje. É consigo o que é com outros. Ama os próximos quase como aos filhos.

Delegada de ensino. Gosta. Conversas e conversas e decisões. Interage. Norte de Minas e capital. 42 municípios sob sua tutela. Viaja, vai, vem, vai, vem. Modera, modela, representa. Articula para tornar viável, realiza junto. Integra órgãos estaduais e cidades. Com a equipe, consensua. Assim, 50 anos de trabalho efetivo. E mais 18, aposentada, sutil nos afetos, atenta, pronta para escutar, pensar, falar, agir.

Em toda a vida, emociona-se com serenatas e boas conversas ao anoitecer. Tem mão boa para plantar. Cava, semeia, cuida. Adora uma arrumação. Quem estiver perto entra na roda. Nos momentos mais diversos, exercita a solidariedade, constrói vínculos, valoriza amizades.

2002. Gasto, o corpo cansa. Rápida como sempre, prevê, organiza, distribui o que suou. E vai. Minha mãe permanece em mim, em nós.

Passado um tempo,
quanto mais vivo, cultivo minha mãe boa. Caem em névoa os beliscões, os olhares determinantes, as limitações. Sinto que me compreendo quando compreendo mamãe. E olha que, raivoso, briguei com ela um mês antes de sua morte. Mamãe estava com câncer brabo, ali em órgãos que filtram, se espalhando. Num momento, ela, aos meus olhos, maltratou uma moça que dela cuidava. Eu – que nunca lhe havia falado grosso – fui duro, impulsivo, gritei com mamãe. Ela ali, me olhando estupefata, de baixo pra cima, da sua provisória cadeira de rodas. Nos dias seguintes, emudeceu comigo, não respondia a meus “benção, mamãe?”. Diante de minha insistência, foi clara: “Perdoar, perdoo. Mas esquecer, não esqueço.”.

Em relação a mamãe, não sei explicar direito, sei que meu coração está cada vez mais tranquilo. Desconfio que é porque fui sincero comigo mesmo, com ela. Como fui proativo em muitos momentos que tomei a iniciativa do abraço, do beijo, da palavra doce. Parece que, como mamãe, sou assim, variado também em doce e amargo.

Luiz Fernando Sarmento















domingo, 15 de outubro de 2017

atos fractais - 03 uma vida incomum como qualquer um





atos fractais


Um pedaço representa o todo? Pequenos atos têm me dado informações sobre quem os pratica. Quem joga na rua o lixo que tem na mão me informa que não cuida dos outros. E talvez não cuide dos outros porque não aprendeu cuidar de si. Imagino: se não cuida de si, como cuidará de outros?

Mas, como diz Barreto, o Adalberto de Paula, só reconheço no outro o que conheço – tenho? – em mim. Pelo que percebo, outros pequenos atos me denunciam. Se jogo lixo no chão, se falo grosso, se furo fila, se bato em criança, se desperdiço água, se critico alegria, se rio das pegadinhas, da desgraça do outro...

Parece óbvio,
mas só há pouco tempo constatei que meu humor tem sido meu melhor indicador: se estou de bom humor, estou bem.

Agora sei que só consigo comunicar-me com quem me escuta. E vice versa. A comunicação se dá quando entendo o que me foi dito. E sou entendido.

Eu me sinto bem com cada ato que realizo para difundir o que sinto me faz bem. Ouvi e concordo: minha saúde é coisa muito séria para ficar nas mãos de outros. Se não cuido de mim, quem cuidará? A autonomia que me permito, desejo a cada um que a deseje.

O sítio de mamãe chamava sossego. Era seu desejo. Sem saber disso, meu terapeuta Romel sintetizava em cumprimento: saúde, sucesso, sossego.

Há espectadores que acreditam mais na TV que na realidade?

Em mim, é lento o processo de absorção de uma nova ideia, de mudança de comportamento. Há 7 anos desejo um sofá. Há 35 quero escrever um livro. Há 50 sonho ser dono do meu próprio nariz.

O que é novo me incomoda, me ameaça. Já desenhei o sofá, tento pela enésima vez escrever um livro, mas inda confundo meu nariz com o de outros.

Com defesas ativas como as minhas – que atrapalham a realização dos meus desejos originais – imagino quantas inovações, descobertas filosóficas, tecnológicas, insights, invenções, criações... estão disponíveis para a humanidade e não nos chegam ao conhecimento.

Percebo
que boa parte dos custos de empresas e empreendimentos é gerada pelos controles. Controlar dá trabalho, dá despesas. Por outro lado, a necessidade de controles diminui quando confianças mútuas estão presentes. Nas relações pessoais, familiares isto é nítido.

Tenho certo que necessidades de controle diminuem, se cultivadas relações de confiança. O medo gera controles. O amor gera confiança.

Percebo em minha prática individual que quando remunero satisfeito – financeira e emocionalmente – serviços que me são prestados, recebo de volta empenho espontâneo, com envolvimento e boa vontade. Quando cuido do outro, o outro cuida de mim, naturalmente.

Admiro a inteligência dos empresários que repartem lucros com quem com eles trabalha. É natural que cada trabalhador reconhecido se sinta reconhecido. E, tanto como se fosse seu, passa a melhor cuidar de tudo ligado ao trabalho: seja de equipamentos e insumos, seja de relações humanas com o público, colegas, demais stakeholders.

Administrador, gerente que cuida de quem trabalha próximo dorme tranquilo, vive melhor, tem assunto com os filhos. Não precisa esconder dos filhos malfeitos para os quais colabore. Feitores – antigamente? – tinham esta função: obrigar ao outro fazer o que não quer. Administrador que age amorosamente tem retorno amoroso. Parece complicado, mas é simples. É o tal do amor. O tao do amor?

Luiz Fernando Sarmento









sexta-feira, 13 de outubro de 2017

livre associo - 02 uma vida incomum como qualquer um


livre associo


Misturo de um tudo. Nas ruas, louras, louras, louras. Chego mais perto, são negras as raízes dos cabelos. As louras, na verdade, são morenas. Barbie, modelo de beleza, american way of life, é referência. Nas falsas-louras nativas, talvez angústia por não serem, originalmente, semelhantes aos ídolos adotados.

Comunicação é meio,
mesmo o meio sendo em si mensagem. O primeiro desafio que vivo é perceber o que meu próprio inconsciente tenta me comunicar. Apesar dos impedimentos por parte de outras partes de mim. Fico atento aos sinais que me dão meus atos falhos. Ato falho não falha!

Conteúdos que me tocam me emocionam. Minha memória afetiva, sinto, permanece. Minha memória racional me escapa. De que mesmo eu estava falando?

Quero aprender, como diz Simone de Beauvoir, “viver sem tempos mortos”. Concordo com Sérgio Mello: os planos funcionam, difícil é o cronograma. Também com alguém, não me lembro quem: seja o que deseja ser.

De vez em quando me pego muito eficiente, no caminho errado. Perdi minha vida por educação. Foi Verlaine quem disse?

Esta aprendi com Adalberto de Paula Barreto – a pergunta que antes, submisso, fazia a outros, agora tenho perguntado ao espelho: que você quer que eu queira, pr’eu querer?

Aprendi e me tem feito bem: meu humor como indicador. Se estou de bom humor, estou bem. Se de mau humor, estou mal. Identifico-me com o que entendi do FIB, Felicidade Interna Bruta.

Meus filhos, meus amigos aprendem comigo mais pelo que sou do que pelo que falo. Vice versa, eu também.

Meus desejos me mobilizam. Eu me movimento a partir dos meus desejos. Desejos são básicos aos meus movimentos. Procuro descobrir quais meus
desejos.

Tento construir, pelas ações, pontes entre desejos e práticas. Pra facilitar, só quando preciso, numa coluna listo as tarefas que julgo necessárias para a realização do desejo. Ao lado de cada tarefa, em outras 4 colunas, prevejo datas, custos, responsáveis e anoto outras observações. Dentro de mim, o conflito entre prever-planejar e não ter agenda, não limitar o futuro. Talvez eu possa planejar e adaptar à realidade o que antes previ.

Se não gozo quando transo, permaneço com uma vivacidade juvenil, o prazer permanece. O gozo já não é meta. A meta, se existe, é o prazer em cada momento.

Onde vai meu pensamento, vai minha energia.
Aprendo escolher pensamentos.

De Freud entendi que muitos dos conteúdos dos sonhos estão relacionados a acontecimentos do dia anterior. Quando suporto alegria, antes de dormir, leio o que me faz sentir bem. Quando acordado, evito situações que me gerem sentimentos desagradáveis.

Outros em outras épocas já descobriram um tanto disto tudo. Esta memória coletiva onde está? Sei que quando relaxo, capto.

Volta e meia me pego,
inconsciente, estragando prazeres: ao brigar com a namorada quando estava gostoso, ao chutar pedra quando a caminhada tava boa, ao detonar um trabalho que me trazia enlevo... Muitas vezes senti como insuportável a alegria. A minha, as de outros. Percebi o mesmo em outros.

Permaneço desconfiado que isto se relaciona com minha cultura cristã, que proíbe emoções, prazeres – vide os 10 mandamentos e os 7 pecados capitais. Serei castigado – agora ou depois da morte – se transgrido alguma regra.

Perdi minha inocência quando fui catequizado. Antes, em mim só existia um senso ético. Não existiam pecados mortais, veniais, infernos. A moral veio como doutrina. Internalizei as regras e as consequências de transgressões: dentro de mim, associo o prazer ao castigo. Logo que percebo prazer, lembro castigo.

Evito castigos eliminando prazeres.
Os prazeres se tornam então insuportáveis.

Agora, consciente, aprendo ser mais responsável por mim mesmo, minhas ações, minha vida. Sei que já não devo reclamar da pedra ao tropeçar nela. Eu é que não prestei atenção. Reclamo antes ao espelho.

Algumas vezes minha vida ficou sem sentido. Tanto fazia viver, morrer. Não cheguei a procurar a morte. Mas a vida tava sem gosto. A lembrança dos filhos me animava. Eu era resiliente e não sabia: vim do quase fundo do poço ao equilíbrio dinâmico de agora.

Antes dos 8 anos já sabia da proibição dos prazeres. Vivi prazer e medo em secretas descobertas infantis. E punhetas silenciosas das 2 da tarde aumentavam culpas, pavores e rezas noturnas. Aos 14, no beco dos meninos, tive a sorte do acolhimento tranquilo naquele corpo diferente do meu. Aprendi a gostar de mulher.

Mas perdi mesmo a grande inocência quando sofri o catecismo. Não sabia de pecados – mortais, veniais – e castigos. Ficou um medo enorme do inferno eterno, chamas que nunca acabam. Foi como um insight ao contrário, um indark.

Wilhelm Reich foi um choque bom. Perdi outra inocência, ganhei consciência: sou responsável por mim.

Hoje leio sem ter que fazer provas. Só em boa companhia, adoro orelhas de livros, vejo trechos de Freud, Jung, Nise, Bubber, Moreno, Lobsang, Rajneesh, Lacan, Platão, Voltaire, Saint-Exupéry, Szasz, Chang, Capra, Moody, Rogers, Beauvoir, Lobato, Quino, Monroe, Veríssimo, Barreto, Cançado, Ferenczi, Angeli, Brunton, Eco, Laing, Freire, Ziraldo, Ludemir, Nietzsche, Feitosa, Pessoa, Moraes, Pontes, Chacal, Robin... e por aí vou. Se entendo, ai, que bom.

Se não, vou em frente, volto, folheio. Antes de dormir, então, leituras facilitam o sono, os sonhos. É uma forma de oração, cuidar do que me vai dentro.

As sínteses de Pontes, o Roberto: todo mundo é, todo mundo pode ser. E: o saber em todo ser. Mais ainda: amor e medo, emoções básicas.

Lembro a Chiquita Bacana de João de Barro:
existencialista, com toda razão, só faz o que manda o seu coração.

E talvez Sartre: não importa o que fizeram com minha vida. Importa o que vou fazer com o que fizeram da minha vida.

E o título do livro póstumo de Winnicott:
Tudo Começa em Casa.

Luiz Fernando Sarmento
















quarta-feira, 11 de outubro de 2017

fora de ordem - 01 uma vida incomum como qualquer um




fora de ordem


Aqui os tempos se misturam tanto quanto os assuntos. Fim e meio não sabem onde começam. Sorte de quem escolhe o que lê. E salta o que não lhe importa.

Tudo um tanto confuso,
não sei direito quem sou, que faço. Só sinto, só penso. A novidade é que aqui e agora estou estruturado, como desejei e produzi. Filhos cuidados, casa com cada coisa em seu lugar, despesas básicas de todo dia supridas – comida, condomínio, telefone, gás, luz, net-internet. Posso acordar e, em cada momento, escolher o que fazer da vida.

Os desejos vão, vêm, se transformam. As variáveis que interferem nos meus desejos são inúmeras, inesperadas, fora do meu controle. O que é agora pode ser diferente depois. Quase como rotina, cuido de mim; alongo ao acordar, cozinho, lavo, mantenho o básico. Cada dia tem sido outro.

De duas em duas semanas, um casal arruma o apartamento. Outros amigos e colegas copiam vídeos que realizei só ou em parcerias, incluem na internet, compõem programas alternativos de TV. Participo de encontros de interesse comum, ajo reativo ao processo de cada parceiro, despreocupado de tempos. Em relação ao bem-estar meu e do mundo, procuro distinguir o que está ao meu alcance.

Dentro de mim, cada vez mais tranquilo. Isto ontem, hoje de outro jeito, amanhã não sei. Quero agora escrever, fora de ordem. Princípio, meio, fim se misturam. E, dependentes de minha memória, se perdem ou nem se completam. Imagino – e proponho agora – cada leitor, se houver, cuide editar o que leia. Escolho o mais próximo do que sinto síntese. Vez ou outra me repito, como pra recordar. Detalhes, aprofundamentos, talvez mais adiante.

Compartilho
o que, inda que verde, me faz bem e imagino possa fazer a outro. Se edito a prosa, encontro o verso. Se edito o verso, o hai-kai? Se edito o hai-kai, o silêncio. Nem tudo se resume a isto. Confesso, não sei direito o que é hai-kai.

Em pleno vôo, a aeromoça orienta. Quando as máscaras caírem, primeiro cuide de você, depois dos outros, mesmo crianças. Analogia imediata, cuidarei melhor do outro, se antes cuido de mim. Como você pode cuidar de mim, se não cuida de você? A pergunta que fiz a um amigo, tenho feito ao espelho: como posso cuidar do outro, se não cuido de mim?

Tento inventar, descobrir, construir jeitos de relacionar-me que me supram. Aprendo que não posso dizer sim a algo que não está em mim.

Facilita minha vida quando separo a loucura do outro da minha loucura. Se a mim não me permito, a outros inibo. E vice versa. Quando não beijo, por exemplo, muitas vezes não suporto outros se beijarem. Muitos “não!” que me chegam, são “loucuras” de outros.

Como Cacilda Becker, não tenho tido tempo pra lutar contra, só a favor. Como, talvez, Tom Jobim, aprendo que democracia é muito bom, inda mais se a pratico aqui com meus colegas de trabalho, lá em casa, com quem está ao meu alcance. Descubro que meus pensamentos são escolhas minhas. Que gentilezas têm me gerado gentilezas. E quanto mais me conheço, melhor vivo.

Na tentativa de tornar mais simples minha vida, aprendo que quanto menos tenho, mais leve me sinto. Um par de sapatos é suficiente, três me dão mais trabalho que um.

Os objetos é que me têm, não eu que tenho os objetos. Carros dão trabalhão. E plantas, animais: é o cachorro que me levaria a passear, não eu a ele. Não posso deixar a casa sozinha se há plantas pra cuidar. Qualquer coisa que tenho, me dá trabalho. Um bibelô? Tenho que espanar. Se tenho em excesso, trabalho em excesso. Sou assim quase escravo do que tenho.

O subjetivo, também, pauta minha vida. Sinto assim. Os saldos positivos da minha vida estão relacionados aos afetos. Aprendo que um meu capital básico são as relações que cultivo, os afetos que me envolvem. Que sonhar me faz bem: me orienta o que faça. E que há vazios em mim que só eu posso aprender a preencher.

Alguma compaixão me nasce em relação a quem dedica a vida a acumular coisas e sentimentos negativos, em tentativas de preencher vazios que em si mesmo desconhece. Aprendo que melhor aprendo, fazendo. E que melhor ensino, sendo. E eu, que não consigo resolver esta pretensão de que sei um tanto sobre quase tudo?

Como eu,
imagino que uma mãe, um pai, professor, patrão, governante, sacerdote... desejam que um outro seja o que não é. Eventualmente inconscientes, projetam no outro seus próprios desejos. Nuns e noutro, quando cai a ficha – se cai – a consciência se dá, a compreensão se instala, o comportamento tende a mudar. Quando a ficha não cai, permanecem – eternas? – incompreensões.


Luiz Fernando Sarmento








quinta-feira, 28 de setembro de 2017

sacações








Sacações.

Se me conheço, cresço. 
Conhecimento é poder. 
Do que não sei, não usufruo.

Administro sentimentos, 
é o que penso. 
Sentimentos administram meus pensamentos.

Quando escolho o médico, 
escolho o tratamento.

Saúde dá lucro pra quem tem. 
Doenças dão lucros 
pra quem lucra com elas.

Parece, a vida é assim, 
do jeito que escolho. 


Quando volto pro meu umbigo, 
reflito.

Imagino tanta gente, 
como eu, 
em busca de si mesmo. 
Ora focado 
ora a esmo.

Mas, me completo, 
mesmo, 
é com quem se completa comigo. 
E eu consigo.



Intimidade, 
melhor com afinidade. 

Mexe, remexe, 
nós juntos, 
uma creche.